quarta-feira, 28 de março de 2012

procura

As coisas procuram o seu real sentido antes de se tocarem.
As coisas perdem o seu real sentido antes de se reconhecerem.
As coisas perdem-se entre si, sem saber em que metafisica aterrar.
Assim, dizemos adeus à procura, pois a cada coisa, a cada procura dessa coisa,
o tempo desfaz-se, desvanece entre si próprio, entre os tempos.
Chorar faz agora parte do brilho aguçado dos olhares,mas o aperto que outrora se sentia
vai-se evaporando à medida que a luz escurece o quarto.

sexta-feira, 23 de março de 2012

Terceira Idade


As portas são um conhecido dispositivo cómico usada com fartura na tradicional comédia, com expoentes em Beaumarchais, por exemplo. Entrar e sair em alturas erradas, meter a pata na poça, ver o que não se devia ou esconder-se atrás de um cortinado. Entretanto perderam-se as casas. Ou abriram-se.
Nos espetáculos que normalmente faço com o Teatro Praga não há delimitações, paredes de cena ou portas construídas, janelas, essas coisas. E por isso a comédia de portas pode saltar para a comédia de identidades: um ator que é tantos nomes que entra e sai dos nomes como quem entra e sai por portas.
É este o dispositivo cómico de TERCEIRA IDADE. A que se junta uma ideia saída do argumento de uma peça de Marivaux, Atores de boa fé (1757): Uma companhia de teatro é contratada para representar uma comédia a fim de celebrar um casamento, mas a dona de casa (a sogra), por razões de moral, não autoriza. Quem os contratou promete que não só haverá comédia como será a dona da casa a protagonista do espetáculo sem o saber.
Rodando TERCEIRA IDADE à volta do "Quem sou eu?", nada melhor que um ator que não sabe que está a ser ator como dilema sem solução, numa espiral de matriochcas propensa a lutas pela "personagem", pela pessoa, pelo sujeito e por todas essas identidades presentes num espetáculo.

São quatro personagens que antes de começarem já se reformaram. Relembram os tempos das batalhas, roubando memórias aos filmes de guerras em selvas vietnâmicas e cidades em estado de sítio, e protestam por uma reforma condigna. Gente com passado, que apresenta rugas onde não as vemos. O horizonte mais próximo é a morte, mas a melancolia é comédia e o desepero gargalhada. Às vezes parecem saídos de filmes de veteranos como RED, MERCENÁRIOS ou último ROCKY, em que um conjunto de glórias dos filmes de ação (Bruce Willis, Morgan Freeman, Sylvester Stallone, Mickey Rourke...) se voltam a juntar para uma última missão. Como se o filme fosse eternamente, o mesmo. E esta imobilidade nos aliviasse da idade. Somos novos e velhos, somos actores e personagens, entramos e saímos sem sair do mesmo sítio. Não é isto a comédia?

Direcção Pedro Penim
Intérpretes Andreia Pereira, Ângelo Carvalho, Carolina Macedo, Cátia Oliveira, Débora Coelho, Diana Teixeira, Diogo Rosas, Ema Santa-Bárbara, Filipe Fernandes, Inês Cunha, Maria de Carvalho, Maria João Silva, Mayra Ronda, Micaela Soares, Rita Trigo, Rui Pereira, Tatiana Rocha, Vasco Lima [alunos do 3ºano do curso de Teatro do Balleteatro Escola Profissional]
Direcção técnica Alexandre Vieira
Produção balleteatro
Registo vídeo Susana Andrez

DATA
21 - 23 MAR

HORA
Dia 21 às 21H30
Dia 22 e 23, sessões às 15H e às 21H30

Preço
5 euros (público geral)
No dia 23 a receita da bilheteira reverte a favor da Casa do Artista.

LOCAL
balleteatro auditório | Praça 9 de Abril, 76 | 4200-422 Porto

quarta-feira, 7 de março de 2012

esqueleto

Dá-se o nome de “segurança” a um composto de várias estruturas sólidas, em sentido figurativo, cujas se constroem ao longo de um determinado período de tempo. A questão resume-se às várias quebras, às várias formas que por ela colidem. Não se simplifica a uma constante mudança, em constante construção. Há sempre alguém que destrói o que ainda não está construído, do seu lugar de origem. Esse alguém devia desfrutar as pequenas peças que o envolvem e acreditar numa máscara, mesmo que haja alguém por detrás dele. Esse alguém não quer mais ser ninguém, sem perceber se já o é, ou alguma vez o foi.
Sem querer, e talvez longe do esqueleto real, acabo assim de contar uma estória sem inicio, com um final inexistente.