segunda-feira, 26 de novembro de 2012

domingo, 18 de novembro de 2012

quarta-feira, 14 de novembro de 2012

Trajeto


O tempo recusa-se em mostrar-se. Hoje, e talvez nunca. Aquele ser afastou-se. Os animais olham-me. Têm pena de mim. Hoje lembro-me dos outros que há muito não me lembrava. Sonhei com eles. Vou escrever-lhes. Espero que sejam felizes. Os animais querem fugir. Outros afastam-se simplesmente. Sem olhar. Fingem que nada é com eles.
A condolência do tempo está estranha hoje. Talvez seja em memória aos que não estão.
Sentido Trindade.
Os estrangeiros são cada vez mais.
Os viajantes têm cara de tédio. Deve ser da crise. A crise tem culpa de tudo.
Sentido São Bento, Linha D.
É Amarela.
É rápido isto.
Passa um, vai o outro. Cada vez mais gente. Cada vez mais atropelamento entre eles.
É um colapso de pessoas.
Paragem.
Deixe sair antes de entrar.
Saí.
Fim de viagem.

quinta-feira, 8 de novembro de 2012

David Ackert


"Os artistas são as pessoas mais motivadas e corajosas sobre a face da terra. Lidam com mais rejeição num ano do que a maioria das pessoas encara durante toda uma vida. Todos os dias, artistas enfrentam o desafio financeiro de viver um estilo de vida independente, o desrespeito de pessoas que acham que eles deviam ter um emprego a sério e o seu próprio medo de nunca mais ter trabalho. Todos os dias, têm de ignorar a possibilidade de que a visão à qual têm dedicado suas vidas seja apenas um sonho. Com cada obra ou papel, empurram os seus limites, emocionais e físicos, arriscando a crítica e o julgamento, muitos deles a ver outras pessoas da sua idade a alcançar os marcos previsíveis da vida normal - o carro, a família, a casa, o pé-de-meia.

Porquê? Porque os artistas estão dispostos a dar a sua vida inteira por um momento - para que aquele verso, aquele riso, aquele gesto, agite a alma do público. Artistas são seres que provaram o néctar da vida naquele momento de cristal quando derramaram o seu espírito criativo e tocaram no coração do outro. Nesse instante, eles estão mais próximos da magia, de Deus e da perfeição do que qualquer um poderia estar. E nos seus corações, sabem que dedicar-se a esse momento vale mil vidas "

(David Ackert)

quarta-feira, 3 de outubro de 2012

quarta-feira, 5 de setembro de 2012

segunda-feira, 27 de agosto de 2012

sexta-feira, 24 de agosto de 2012

segunda-feira, 23 de julho de 2012

segunda-feira, 11 de junho de 2012

sábado, 19 de maio de 2012

objecto de duas peças

"Um objecto que se incide numa camada amena de sonho, torna-se constante presença num lugar de aconteceres, onde a imaginação comanda o ato mágico de sonhar."

quinta-feira, 17 de maio de 2012

quinta-feira, 3 de maio de 2012

o ator

" O ator acende a boca. depois, os cabelos.
Finge as suas caras nas poças interiores.
O ator põe e tira a cabeça
de búfalo
De veado.
De rinoceronte.
Põe flores nos cornos.
Ninguém ama tão desalmadamente como o actor
como o ator.
O ator acende os pés e as mãos.
Fala devagar.
Parece que se difunde aos bocados.
Bocados estrela.
Bocado janela para fora.
Outro bocado grupo para dentro.
O ator toma as coisas para deitar fogo
ao pequeno talento humano.
O ator estala como sal queimado.
(...)

poemacto
herberto helder

terça-feira, 1 de maio de 2012

quinta-feira, 26 de abril de 2012

quarta-feira, 18 de abril de 2012

algures um animal

Ele move-se como um animal.
Animal alto, magro, de cor pálida.
Não salta, arrasta-se.
Não cheira, deixa ser cheirado.
Observa com mil olhos cor de avelã.
Não se deixa descobrir entre animais desconhecidos,
apenas os inertes, de vasto interesse.
Ele come como um animal, de forma amistosa
e gananciosa, consome consoante o produto apetecido.
não procura, espera que venha.
Ele procura se o cheiro lhe é agradável, como o animal.
A sua beleza ultrapassa a do animal, irreconhecível,
característico aos olhos de alguns.
Não toca como o animal.
Não sente como o animal.
Sente como o animal.
Não acaricia como o animal.
Domina como o animal.
Não ama como o animal.
Ama com o olhar.
Ele não se comporta como o animal.
Ele comporta-se como o animal.
Ele não é um animal.
Ele é ele.
Com a sua característica metafisica não teorizada.
Ele é, comigo, a contraposição do espaço.
E do tempo.

quarta-feira, 28 de março de 2012

procura

As coisas procuram o seu real sentido antes de se tocarem.
As coisas perdem o seu real sentido antes de se reconhecerem.
As coisas perdem-se entre si, sem saber em que metafisica aterrar.
Assim, dizemos adeus à procura, pois a cada coisa, a cada procura dessa coisa,
o tempo desfaz-se, desvanece entre si próprio, entre os tempos.
Chorar faz agora parte do brilho aguçado dos olhares,mas o aperto que outrora se sentia
vai-se evaporando à medida que a luz escurece o quarto.

sexta-feira, 23 de março de 2012

Terceira Idade


As portas são um conhecido dispositivo cómico usada com fartura na tradicional comédia, com expoentes em Beaumarchais, por exemplo. Entrar e sair em alturas erradas, meter a pata na poça, ver o que não se devia ou esconder-se atrás de um cortinado. Entretanto perderam-se as casas. Ou abriram-se.
Nos espetáculos que normalmente faço com o Teatro Praga não há delimitações, paredes de cena ou portas construídas, janelas, essas coisas. E por isso a comédia de portas pode saltar para a comédia de identidades: um ator que é tantos nomes que entra e sai dos nomes como quem entra e sai por portas.
É este o dispositivo cómico de TERCEIRA IDADE. A que se junta uma ideia saída do argumento de uma peça de Marivaux, Atores de boa fé (1757): Uma companhia de teatro é contratada para representar uma comédia a fim de celebrar um casamento, mas a dona de casa (a sogra), por razões de moral, não autoriza. Quem os contratou promete que não só haverá comédia como será a dona da casa a protagonista do espetáculo sem o saber.
Rodando TERCEIRA IDADE à volta do "Quem sou eu?", nada melhor que um ator que não sabe que está a ser ator como dilema sem solução, numa espiral de matriochcas propensa a lutas pela "personagem", pela pessoa, pelo sujeito e por todas essas identidades presentes num espetáculo.

São quatro personagens que antes de começarem já se reformaram. Relembram os tempos das batalhas, roubando memórias aos filmes de guerras em selvas vietnâmicas e cidades em estado de sítio, e protestam por uma reforma condigna. Gente com passado, que apresenta rugas onde não as vemos. O horizonte mais próximo é a morte, mas a melancolia é comédia e o desepero gargalhada. Às vezes parecem saídos de filmes de veteranos como RED, MERCENÁRIOS ou último ROCKY, em que um conjunto de glórias dos filmes de ação (Bruce Willis, Morgan Freeman, Sylvester Stallone, Mickey Rourke...) se voltam a juntar para uma última missão. Como se o filme fosse eternamente, o mesmo. E esta imobilidade nos aliviasse da idade. Somos novos e velhos, somos actores e personagens, entramos e saímos sem sair do mesmo sítio. Não é isto a comédia?

Direcção Pedro Penim
Intérpretes Andreia Pereira, Ângelo Carvalho, Carolina Macedo, Cátia Oliveira, Débora Coelho, Diana Teixeira, Diogo Rosas, Ema Santa-Bárbara, Filipe Fernandes, Inês Cunha, Maria de Carvalho, Maria João Silva, Mayra Ronda, Micaela Soares, Rita Trigo, Rui Pereira, Tatiana Rocha, Vasco Lima [alunos do 3ºano do curso de Teatro do Balleteatro Escola Profissional]
Direcção técnica Alexandre Vieira
Produção balleteatro
Registo vídeo Susana Andrez

DATA
21 - 23 MAR

HORA
Dia 21 às 21H30
Dia 22 e 23, sessões às 15H e às 21H30

Preço
5 euros (público geral)
No dia 23 a receita da bilheteira reverte a favor da Casa do Artista.

LOCAL
balleteatro auditório | Praça 9 de Abril, 76 | 4200-422 Porto

quarta-feira, 7 de março de 2012

esqueleto

Dá-se o nome de “segurança” a um composto de várias estruturas sólidas, em sentido figurativo, cujas se constroem ao longo de um determinado período de tempo. A questão resume-se às várias quebras, às várias formas que por ela colidem. Não se simplifica a uma constante mudança, em constante construção. Há sempre alguém que destrói o que ainda não está construído, do seu lugar de origem. Esse alguém devia desfrutar as pequenas peças que o envolvem e acreditar numa máscara, mesmo que haja alguém por detrás dele. Esse alguém não quer mais ser ninguém, sem perceber se já o é, ou alguma vez o foi.
Sem querer, e talvez longe do esqueleto real, acabo assim de contar uma estória sem inicio, com um final inexistente.

quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

quem?

Por vezes emerges-te numa superfície de imbecilidade e esqueceste quem está do outro lado do muro. Fechas os olhos para uma possível afeição, só os abres se precisares. assim, e sem explicação, vejo ondas variantes de inúmeras faces.
Quem és tu afinal? O que queres de mim?
Matas-me aos bocadinhos com algum amor pelo meio. Tens a capacidade de construir sonhos. Também os eliminas.

sábado, 18 de fevereiro de 2012

viagem

Viajar à noite é das coisas mais magníficas de que eu me lembro.
É uma civilização inteira dividida em luzinhas pequeninas, e eu tão longe consigo sentir uma certa magia a invadir-me a razão. É ver estrelas, também elas pequeninas mas que em conjunto iluminam a noite, a paisagem de alguém. Calmas as luzes.
Boa noite.

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

it is a life lesson

objecto

Os ventos contrários indicam a simplicidade ineficaz as sonoridades.
O que parece neutro nem sempre o é. Tornando-se assim numa mentira.
O grito preliminar sopra consoante a bonança,
Esta que entre tempos tem medo de aparecer.
Talvez seja anti-natural o objecto que somos.
A verdade é que não é fácil ver matéria sem clareza.
Os caminhos imóveis tendem a calar o silencio que outrora falava.
Agora incomoda.

segunda-feira, 23 de janeiro de 2012

inocência de um corpo

O silêncio acomodou-se perto da janela principal da casa,
e o que parecia ser o fim da sonoridade dos corpos,
tornou-se em gestos calmos num lençol sem cama figurada.
Mais uma palavra e a noite não era mais do ninguém.

domingo, 22 de janeiro de 2012

e amanhã?

A maioria das coisas agrupa-se em pequenos lugares sujos e lentamente sentem o frio da terra que as cobre.
A imagem sem brilho é como se idealiza-se, mas numa realidade tão distante que se sente mesmo antes de fechar os olhos.
Os seres que por aqui habitam vêem-se obrigados a desaparecerem no nevoeiro desta noite de inverno.
Seria mais fácil se o cheiro a amor aqui estivesse e talvez os rios calados fossem embora de vez, ainda que o silêncio seja desconhecido. Falar é pouco, torna-se mudo. O tempo não é mais inerte mesmo que as palavras o sejam.
E amanhã que dia será?

domingo, 8 de janeiro de 2012

Abrigo

Há muito que não me via sobre a luz do chamamento da noite entre pensares apenas a mim pertencentes.
A verdade, é que já não nos vejo como futuro próximo, somos apenas momento físico em tempo real, e isso faz-me paralisar sobre o espaço.
Lamento porque, em tempos éramos metafísica inerte que fazia parte de um lacere de boas memórias. Lembro-me quando dormíamos sobre imagens precárias, quando o vazio era amigo quase invisível. Lembro-me de palavras quase promessas. Lembro-me de idealizar para acreditar e esperar. Beijos outrora apaixonados, também os lembro.
Lembraste de passeios longos? Lembraste dos momentos quase premeditados, quase escritos por outrem?
Os mundos parecem tão distantes agora, e o que dizemos tão longe da verdade, de nós.
Um lamento sobre o escuro
a voz atada por uma corda de prazeres cegos, são corpo de um fogo lento sem destino prescrito.

lamento mas não fujo.
é tudo o que posso dizer.

Aconchego

Agradeci com palavras mudas.
Agradeço para mim mesma cada pedaço de sonho, parecem cada vez menos, tornando-se-me insatisfeita. Agradeço quando criança apaixonada.
E assim procuramos um lugar quente na cama desfolhada entre mil cristais.
Agradeço. Idealizava eterno.