quinta-feira, 23 de setembro de 2010

escrita em objecto


Sento-me nesta sala e relembro um naufrágio, meu, em tons de azul, quase intocável.
Tenho, de mim, uma imagem de uma postura de perfeição. Confortável em toque, em desconforto inquietante no interior.
Lembro-me de pertencer a um olhar tão meu, tão pouco dos próximos. Olhar nervoso, com medo do horizonte, para o qual devia manter-me concentrada.
Soltava suaves sorrisos enquanto alheios encontravam gargalhadas num lugar onde eu tentava ser eu, em mim, melhor.
Lembro-me de olhar pela janela, e ver uma outra, rodeada de um tempo envelhecido, pertencente a um passado, vivendo num presente onde qualquer um, lá habita. Ainda assim, as cores sujas não deixam de ter encanto. São apenas cores apagadas, molhadas pela chuva recente de inverno, tão suja quanto aquelas cores, mas com capacidade melódica de marcar quem parar para as observar.
O cor-de-rosa era antigo. Não mostrava beleza de um vestido de uma criança fantasiada de princesa. Talvez nem seja cor-de-rosa, mas sim cor de casa antiga. O branco, morto, manchado de impureza.
Lembro-me de ver um vaso. Folhas verdes, quase inexistentes. Entre elas uma pequena flor, de cor vermelha. O único ser, ali, vivo. Uma pequena vida a olhar o céu, enquanto à sua volta, o que devia ser vida, era apenas objecto esquecido de uma tela fracassada.

segunda-feira, 20 de setembro de 2010

gota de água em mente criativa


Para não cair na banalidade.
Equilibrar uma possível queda diante um abismo banhado em arte,
longe da riqueza do ouro.
Perto da aprendizagem fluida,
marcada por voz em corpo extenso.
Talvez eterno.

Junção de prazeres

Uma folha verde desgastada, encostada no meu ombro.
Marcada por sentidos opostos no delinear de gestos outrora teus.
Tão sentidos, parecendo quase reais na altura. Tão teus, tão meus.
Tão nossos.
Num berço real construído por palavras deixadas para trás.
Palavras que talvez, ainda permaneçam no hoje, ao meu ouvido.
E ainda que se arrastassem em arestas tão pouco desenhadas, gastas com o passar de um tempo inexistente.

quarta-feira, 15 de setembro de 2010

sendo e não sendo por alguém

Esta manhã olhei-te pelo espelho.
Vi-te naufragada, entre naufrágios, na terra de outrem.

I hope you never go away


Foi facada, talvez ainda seja.
As inseguranças pelo ombro fazem duvidar.
“just breathe”, finge que está tudo bem.
Sem medos, lamúrias, ou mais depressões em sentido figurativo.
Vê-me, sem mim, contigo.
E continuo a dar-te a mão.
Até seres tu a deixa-la para trás.

Sem cair na sinfonia

Ouvi chamar-me como pequena mulher.
Fechei os olhos e tentei viajar num mundo que não o meu.
Num outro momento,
De olhos entreabertos, a ver o nada,
Continuei a sentir um sussurrar com cheiro a melodia.
Melodia quebrada.
Foram enganos meus por tornar melódico o que pertencia à categoria de ilusão.
Nunca fui pequena mulher.
Apenas pequena no seu mundo, a procurar um mundo.
Apenas algo pequeno num banco de jardim idealizado à espera de outra razão para sair de um espaço que não o meu.
Espera-se por mais um sussurrar,
Sem saber se ainda algum respira por si só.

terça-feira, 14 de setembro de 2010

sem hoje num amanhã


Como um toque não visível.
Sem sentido intuitivo por perto, para o tornar real.
És tu.
Sem presença permanente.
Num amanhã, seriamos escolhidos por alheios.
Desejosos por ter-nos.
Num outro amanhã, nunca seremos escolhidos por mim.
Porque um dia,
O presente será muito mais do que um simples passado.

Inconscientemente falando

Alguém no silêncio da noite.
Passos mudos, respirar surdo, a procurar um regresso.
Encontra-se sozinha numa estrada fria.
Por capricho da noite, afunda-se em seres desconhecidos, nunca antes vistos, repletos de ruídos em cada encruzilha.
Numa luz suprema os passos tornam-se expressivos, o respirar cada vez mais audível e o encontrar do regresso cada vez mais próximo.
Todos presentes, ninguém por perto.
Por turbulência quebrada,

A rua torna-se deserta,
E o silêncio da noite permanente.
E novamente,
O nada aproximado de um vazio.

sexta-feira, 10 de setembro de 2010

Ironia Invertida


À espreita
Desta vez a ver quem falha.
Há quem se aproxima e hesita
E logo depois dá o seu passo atrás.
Em cem, apenas pára um.
Todos são passado
Num presente que já era.
As palavras mudas vêm por meio de obrigação
Sem pedir que qualquer espaço seja preenchido.
Espaço esse,
Que naquele dia foi nosso.

Come take a walk with me


Desperdício de ser.
Pensa-se no que não se tem
Procura-se ser o que o ontem não aceitou.
Desperdício de mim.
Vagueia-se por lados opostos
Caminha-se por caminhos, um dia, traçados.
Desperdício de ti.
Por te lembrares
E voltares sem gesto.
Desperdício de mim.
Por deixar que aqui estejas
E que faças parte de um pouco de mim tão próximo.

domingo, 5 de setembro de 2010

Dependeres


Depende de mim, de ti, de nós.
Depende da vida sobre a mesa.
Não é necessário esperar
Se assim for, a inutilidade acontece.
Não é necessário esquecer
Se assim for, a futilidade aparece.
Não depende de mim, de ti, nem de nós.
Não depende da vida sobre a mesa.
Não depende da dependência.
Depende em abafar o que não resta.
Depende em acreditar num depender vazio.
Depende em estar ou não estar
Num lugar por hoje inexistente.

sexta-feira, 3 de setembro de 2010

Meu ninguém


Meu ninguém...
Mesmo de olhos vendados, mesmo sem intuito de procura, mesmo que o que faça não venha de mim…
Só me encontro se ouvir chamar.
De outra forma,
Deixo-me aqui.
Sem mancha de qualquer toque
Com um feitiço inacabado como forma de acreditar num conforto
Com a palavra de ninguém
Apenas com um sorriso como expressão falhada.