Estava isolada por ela própria, cavava naquela terra pedaços de vida deixados para trás. Pequenos grãos de terra banhados por respostas enigmáticas. Fechou os olhos perante aquele quadro, lembrando-se assim, a razão de não fugir. Esperava que a sua fuga lhe viesse chamar, ou pelo menos sussurrar-lhe como em tempos lhe fazia. Como até á chegada daquele minuto, as pegadas eram impossíveis de se ouvir, deixou-se ali ficar. O peso de si era bem mais forte do que a não motivação de alguém. Com o apagar do dia o vento tornou-se seco, ainda que a aquela terra continuasse molhada.
Os seus olhos mantiveram-se fechados até a luz anti-natura lhe cobrir por completo. Não foram precisas palavras, nem mesmo abrir os olhos durante os primeiros segundos, foi suficiente sentirem a presença um do outro. Ergueu-se sobre aquela presença masculina que demorara a chegar e de olhos entreabertos segui-o, com o intuito de sair daquele lugar carregado de emoções de que nada lhe servia, agora que os seus passos pesados abandonavam aquela pequena cidade pertencente apenas a si e ás suas lamurias.
Chegaram por fim a uma casa coberta de ar quente. Uma casa com ar quente, uma corrente de ar quente não humana. Tinha apenas como espaço uma cama, com cheiro a chocolate, e uma chama pertencente a uma vela antiga de velha antepassada. Não disseram uma única palavra até então. Ele dera-lhe tempo para ela se deixar imobilizar pelo aquele espaço. Sem permissão, tocou-lhe no ombro levando-a a deitar-se naquela cama, que de tanto temera. Estavam ali, sobre lençóis doces, sem se tocarem, sem se olharem. Ele sabia com que convicção o havia de fazer. Sabia que gestos interpretar, que palavras citar, e que olhar colocar, numa rima longe de ser harmoniosa, numa peça longe de estar em palco. E ele Sabia-o, inevitavelmente sabia-o, mas deixou-se ali por longos instantes. Apenas a olhá-la sem se ver. Ela continuava confortavelmente apavorada.
Chegaram por fim a uma casa coberta de ar quente. Uma casa com ar quente, uma corrente de ar quente não humana. Tinha apenas como espaço uma cama, com cheiro a chocolate, e uma chama pertencente a uma vela antiga de velha antepassada. Não disseram uma única palavra até então. Ele dera-lhe tempo para ela se deixar imobilizar pelo aquele espaço. Sem permissão, tocou-lhe no ombro levando-a a deitar-se naquela cama, que de tanto temera. Estavam ali, sobre lençóis doces, sem se tocarem, sem se olharem. Ele sabia com que convicção o havia de fazer. Sabia que gestos interpretar, que palavras citar, e que olhar colocar, numa rima longe de ser harmoniosa, numa peça longe de estar em palco. E ele Sabia-o, inevitavelmente sabia-o, mas deixou-se ali por longos instantes. Apenas a olhá-la sem se ver. Ela continuava confortavelmente apavorada.
Tinha os seus saberes: sabia o que estava próximo de acontecer, sabia que queria fugir dali, mas depois dali, não haveria nada como no principio, e entre estar a viver no pavor, e estar sentada no nada, sem contagem do tempo, sem saber quando é que ele vai voltar, era bem melhor viver tudo de novo, vezes e vezes sem conta. E neste impasse de não ou plena liberdade, ele num acto de loucura, deixa-a em tons de pela natural. Apenas uma parte do seu corpo estava protegida, os seus pés tapados por botas de fuga que nunca antes usara, e naquele dia, ainda ao amanhecer, surgiram-lhe entre ruas, serviam-lhe na perfeição. Naquela noite, e porque apenas naquela noite, ele tocou-lhe até há mais infinita dor. Depois de não haver mais lágrimas silenciosas, depois de o sono cair sobre ele. Ela levantou-se na forma mais pacífica que conhecia, pegou na sua roupa, abriu a porta cuidadosamente, olhou-o pela última vez e sentiu que o nada seria seu um dia. Correu sobre aquele solo morto o mais que a sua respiração o permitiu. Quando parou já era dia. Era dia sobre o mar. Não sabia a sua localização exacta, mas tinha a certeza de que a próxima paragem estava bem longe do cheiro a cama chocolate, da vela sem iluminação de caminho fluente, da casa sobre o solo morto.
Perdeu o privilégio de se lembrar, esqueceu a cara daquele homem, esqueceu tudo o que lhe continha. Lembrando-se apenas dos cheiros sem olfacto e da imagem de umas botas velhas em velocidade máxima. A imagem melódica de como desapareceram daquela terra morta.
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