quinta-feira, 9 de dezembro de 2010

Anti-Naturalidade de um Dia



Era um dia fechado a olhos neutros. Não havia sombra dela entre lábios negros. Ali estava, sentada sobre terra molhada a admirar o que de dela não vinha, ouvindo palavras fracas no seu consciente, em que se mentalizava de que ali não devia estar.
Estava isolada por ela própria, cavava naquela terra pedaços de vida deixados para trás. Pequenos grãos de terra banhados por respostas enigmáticas. Fechou os olhos perante aquele quadro, lembrando-se assim, a razão de não fugir. Esperava que a sua fuga lhe viesse chamar, ou pelo menos sussurrar-lhe como em tempos lhe fazia. Como até á chegada daquele minuto, as pegadas eram impossíveis de se ouvir, deixou-se ali ficar. O peso de si era bem mais forte do que a não motivação de alguém. Com o apagar do dia o vento tornou-se seco, ainda que a aquela terra continuasse molhada.
Os seus olhos mantiveram-se fechados até a luz anti-natura lhe cobrir por completo. Não foram precisas palavras, nem mesmo abrir os olhos durante os primeiros segundos, foi suficiente sentirem a presença um do outro. Ergueu-se sobre aquela presença masculina que demorara a chegar e de olhos entreabertos segui-o, com o intuito de sair daquele lugar carregado de emoções de que nada lhe servia, agora que os seus passos pesados abandonavam aquela pequena cidade pertencente apenas a si e ás suas lamurias.
Chegaram por fim a uma casa coberta de ar quente. Uma casa com ar quente, uma corrente de ar quente não humana. Tinha apenas como espaço uma cama, com cheiro a chocolate, e uma chama pertencente a uma vela antiga de velha antepassada. Não disseram uma única palavra até então. Ele dera-lhe tempo para ela se deixar imobilizar pelo aquele espaço. Sem permissão, tocou-lhe no ombro levando-a a deitar-se naquela cama, que de tanto temera. Estavam ali, sobre lençóis doces, sem se tocarem, sem se olharem. Ele sabia com que convicção o havia de fazer. Sabia que gestos interpretar, que palavras citar, e que olhar colocar, numa rima longe de ser harmoniosa, numa peça longe de estar em palco. E ele Sabia-o, inevitavelmente sabia-o, mas deixou-se ali por longos instantes. Apenas a olhá-la sem se ver. Ela continuava confortavelmente apavorada.
Tinha os seus saberes: sabia o que estava próximo de acontecer, sabia que queria fugir dali, mas depois dali, não haveria nada como no principio, e entre estar a viver no pavor, e estar sentada no nada, sem contagem do tempo, sem saber quando é que ele vai voltar, era bem melhor viver tudo de novo, vezes e vezes sem conta. E neste impasse de não ou plena liberdade, ele num acto de loucura, deixa-a em tons de pela natural. Apenas uma parte do seu corpo estava protegida, os seus pés tapados por botas de fuga que nunca antes usara, e naquele dia, ainda ao amanhecer, surgiram-lhe entre ruas, serviam-lhe na perfeição. Naquela noite, e porque apenas naquela noite, ele tocou-lhe até há mais infinita dor. Depois de não haver mais lágrimas silenciosas, depois de o sono cair sobre ele. Ela levantou-se na forma mais pacífica que conhecia, pegou na sua roupa, abriu a porta cuidadosamente, olhou-o pela última vez e sentiu que o nada seria seu um dia. Correu sobre aquele solo morto o mais que a sua respiração o permitiu. Quando parou já era dia. Era dia sobre o mar. Não sabia a sua localização exacta, mas tinha a certeza de que a próxima paragem estava bem longe do cheiro a cama chocolate, da vela sem iluminação de caminho fluente, da casa sobre o solo morto.
Perdeu o privilégio de se lembrar, esqueceu a cara daquele homem, esqueceu tudo o que lhe continha. Lembrando-se apenas dos cheiros sem olfacto e da imagem de umas botas velhas em velocidade máxima. A imagem melódica de como desapareceram daquela terra morta.

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