sexta-feira, 3 de dezembro de 2010

lacere de boas memórias

Não foi uma tarde pré-descrita, nem tão pouco sobre a luz de um dia comum. Foi uma tarde sobre caminhos silenciosos, sem o contra-peso do ninguém de alguém.
Eras imagem que desaparecia e reaparecia sobre o negro da tua voz dormida, e eu era apenas o aconchego de uma tarde fria.
Éramos olhos pálidos sobre uma cama vazia, independente de sabores alheios, e eu a sussurrar-te coisas que não conseguias ouvir, sobre o cheiro do silêncio de uma chama, iluminada pelo inverno ainda virgem.
Os lábios foram rescritos sobre pedra e o nosso rosto recalcado sobre terra molhada, ainda que fosse o sonho mais belo de uma menina. Todos os sentidos deveriam pertencer a um tempo velho e usado, mas ainda encontro, no meio de páginas memoriais, o som de um vestido velho a caminhar pelo chão perante uma luz imortal, sem o vento, sem presença humana – esquecer seria nunca te lembrar, por isso não o faço – lembro-me porque assim o escolhi, mesmo que por dentro me macule.


Lembro-me dos dias em que não estava lá para ficar imóvel sobre ti.

Lembro-me dos momentos em que não havia mobilidade depois de nós.

1 comentário:

  1. incrível .
    o afastamento tem destas coisas.
    perdemos sempre algo na vida do outro. aqui algo mudou, uma menina com palavras de mulher a sairem-lhe pela boca fora disparadas como quem diz "bom-dia" . gostava de um dia ter tal sensibilidade e cuidado com as palavras . os meus rabiscos nunca terão o mesmo cheiro a perfume que estas cartas que escreves e que eu admiro .
    incrível .

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