quinta-feira, 23 de setembro de 2010

escrita em objecto


Sento-me nesta sala e relembro um naufrágio, meu, em tons de azul, quase intocável.
Tenho, de mim, uma imagem de uma postura de perfeição. Confortável em toque, em desconforto inquietante no interior.
Lembro-me de pertencer a um olhar tão meu, tão pouco dos próximos. Olhar nervoso, com medo do horizonte, para o qual devia manter-me concentrada.
Soltava suaves sorrisos enquanto alheios encontravam gargalhadas num lugar onde eu tentava ser eu, em mim, melhor.
Lembro-me de olhar pela janela, e ver uma outra, rodeada de um tempo envelhecido, pertencente a um passado, vivendo num presente onde qualquer um, lá habita. Ainda assim, as cores sujas não deixam de ter encanto. São apenas cores apagadas, molhadas pela chuva recente de inverno, tão suja quanto aquelas cores, mas com capacidade melódica de marcar quem parar para as observar.
O cor-de-rosa era antigo. Não mostrava beleza de um vestido de uma criança fantasiada de princesa. Talvez nem seja cor-de-rosa, mas sim cor de casa antiga. O branco, morto, manchado de impureza.
Lembro-me de ver um vaso. Folhas verdes, quase inexistentes. Entre elas uma pequena flor, de cor vermelha. O único ser, ali, vivo. Uma pequena vida a olhar o céu, enquanto à sua volta, o que devia ser vida, era apenas objecto esquecido de uma tela fracassada.

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